Cirurgia só não faz milagre

setembro 15th, 2016 | Posted by Giselle in Arquivo

Para manter o peso, pacientes precisam de apoio antes e depois
de fazer a redução do estômago

A cirurgia bariátrica ou de redução do estômago não é um tratamento milagroso. A operação é apenas o início de um processo que vai durar a vida toda. É o apoio anterior e posterior ao procedimento que será fundamental para o sucesso na manutenção do peso. O alerta é da coordenadora da equipe de Psicologia do Programa de Assistência e Pesquisa em Obesidade (Passo) e professora do Instituto de Psicologia (IP) da Universidade de Brasília (UnB), Suely Guimarães, após tomar conhecimento dos resultados de um estudo feito no Hospital das Clínicas (HC) em São Paulo, no qual 65% dos pacientes voltaram a ficar obesos após cinco anos da redução do estômago.

Segundo Suely, um dos motivos pelos quais isso acontece é o entendimento do obeso de que as causas de todos os seus problemas estão na gordura. “A vida inteira os obesos são discriminados, recebem apelidos, alguns deixam até de trabalhar, têm dificuldades para se relacionar e com isso vão se isolando cada vez mais”, explica a psicóloga. Muitos atribuem a solução para as dificuldades à operação, mas quando se operam encontram, ao invés de soluções, uma infinidade de situações novas às quais precisam se adaptar.

Se não se adequarem à nova realidade, ficam nervosos, comem e engordam novamente ou desenvolvem comportamentos marginalizados, como o alcoolismo. Também não é raro depois de emagrecer muitos começarem a ser paquerados. Quem não estiver preparado pode desenvolver comportamentos promíscuos. “O obeso tem baixa auto-estima e não é de uma hora pra outra que isso vai mudar”, afirma a psicóloga, que já atendeu 15 pacientes no HUB que fizeram redução no estômago e faz avaliação de outros 50 para saber se podem passar pela cirurgia.

O hábito de comer também funciona da mesma forma: não muda de repente. É necessário descobrir outros prazeres além da comida. A dica da psicóloga é fazer uma mudança radical de vida, que inclui desenvolvimento de habilidades sociais, projetos profissionais, adoção de atividades físicas como rotina, aumento no tempo das refeições e no número de mastigadas. É aí que entra o programa do Hospital Universitário de Brasília (HUB), único no país que assiste o paciente de forma continuada antes e depois da cirurgia bariátrica. O serviço começou a ser prestado desde 2003, mas ainda é cedo para ser avaliado. De acordo com Suely, essa pesquisa só poderá ser feita daqui a pelo menos três anos para saber a trajetória dos operados.

COMO FUNCIONA – Os pacientes do hospital contam com o apoio de uma equipe multidisciplinar e o tratamento começa pelo menos quatro meses antes da cirurgia. Psicólogos, endocrinologistas e nutricionistas fazem uma bateria de avaliações para saber se o paciente tem indicação, se está apto a fazer a operação e se terá condições de se adaptar ao procedimento cirúrgico. Aqueles que não passam na avaliação são encaminhados para psicoterapia.

Os obesos que tiverem indicação para o tratamento cirúrgico passam a freqüentar sessões semanais de quatro horas de duração para conhecer mais sobre o procedimento e receber treinamento para mudanças de hábitos com avaliação continuada e reeducação alimentar. Antes de cada sessão eles se pesam. Espera-se que eles percam cerca de 10% do peso inicial antes da cirurgia. Durante esse período de treinamento, há assistência continuada com a equipe de nutricionistas e de endocrinologistas. Depois da cirurgia, os pacientes também já saem da sala com consulta marcada com o endocrinologista, uma dieta adaptada preparada pelo nutricionista e um novo grupo para freqüentar por tempo indeterminado.

No grupo permanente de pós-operados, os pacientes servem de modelos uns para os outros e aprendem estratégias para driblar as possíveis dificuldades relacionadas ao comportamento alimentar. Além disso, aprendem a responder de modo adequado e produtivo às novas situações sociais, emocionais, afetivas, profissionais e pessoais que surgirão após o emagrecimento. A assistência continuada depois da operação tem o objetivo de evitar o desenvolvimento de estratégias inadequadas ou improdutivas de enfrentamento a essas situações, que possam implicar respostas indesejáveis como depressão, alcoolismo e outros comportamentos.

SÍNDROME DE DUMPING – O grupo de atendimento e a reeducação alimentar são muito importantes para conscientizar os pacientes a respeito das conseqüências do não cumprimento das recomendações. Aqueles que burlam o regime alimentar e ingerem doces, por exemplo, sofrem com a Síndrome de dumping, um conjunto de reações de mal-estar que provoca sudorese, vômitos, náuseas e fraqueza. O paciente operado além de ter o estômago reduzido, sofre alterações também na absorção dos alimentos, pois parte do seu intestino é excluído. Com isso, determinados tipos de alimento podem ser mais difíceis de processar, como o açúcar.

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