Pessoas fazem regime de engorda para poderem se submeter a cirurgia de estômago

setembro 15th, 2016 | Posted by Giselle in Arquivo

O advogado gaúcho Fabiano Gouveia, 28, já era um homem gordo, com seus 125 quilos distribuídos em 1,82 m, quando começou uma dieta de engorda, há um ano e nove meses.
Todos os dias, ele "punha para dentro" duas latas de leite condensado, alguns litros de refrigerante não-diet. Também empanturrava-se de pães e de maionese e avançava sobre nacos suculentos de carne com bastante gordura, fatias lustrosas de bacon e lingüiças. Um saco de 1 quilo de bombom da marca Ouro Branco era devorado em quatro dias.
Para arrematar, o jovem comprava baldes de 4 quilos de um alimento hipercalórico da marca Nutrisport, formulado para atletas e esportistas que desejam ganhar peso sem aumentar o volume das refeições. Praticantes de atividades físicas intensas usam esses alimentos para ganhar músculos. No caso de Fabiano, entretanto, a ingestão do composto vinha acompanhada da seguinte orientação, feita por seu médico: "Não mexa um dedo, não faça nenhuma atividade esportiva. Assim, todo o excesso alimentar se converterá em quilos de gordura corporal extra".
Fabiano seguiu à risca o conselho e, 70 dias depois de iniciado o regime, contava 19 quilos a mais, atingindo a marca de 134 quilos.
Hoje, o advogado pesa 71 quilos. É um homem elegante, mais para magro. Até cresceu. Mede 1,88 metro, seis centímetros a mais do que tinha na fase hiperadiposa. "Eu estava literalmente esmagado pela gordura. Minha coluna vertebral vergara-se, numa cifose, pelo excesso de peso", lembra. O incrível é que foi a dieta de engorda que abriu para Fabiano as portas do mundo dos magros.
Parece lógica torta. Não é. Um entre os 17 milhões de brasileiros obesos, o advogado resolveu recorrer ao expediente mais drástico para emagrecer: a cirurgia de redução de estômago, que promete perdas de até 40% da massa corpórea. E quase sem risco de reengorda.
Como se trata de cirurgia agressiva demais, as entidades médicas impuseram restrições à sua realização. A principal delas: só obesos gravíssimos, ou com sérios danos à saúde por causa do excesso de peso, são candidatos à operação.
Um estudo realizado no Brasil mostra que, em cada mil pacientes que fazem cirurgia da obesidade, três falecem por complicações decorrentes da operação. Há ainda complicações que, sem levar à morte, podem infligir sofrimentos grandes ao paciente.
Segundo o endocrinologista Alfredo Halpern, da Universidade de São Paulo, as comorbidades mais comuns associadas à obesidade são hipertensão arterial, diabetes, problemas na coluna, apnéia do sono e problemas coronarianos. "A chance de um obeso com IMC entre 35 e 39,99 não apresentar nenhuma comorbidade é de apenas 5%", diz.
Muitas vezes, essas comorbidades colocam em risco a vida de um paciente. Sabe-se, por exemplo, que na faixa dos 25 aos 35 anos a taxa de mortalidade dos grandes obesos é até 12 vezes maior do que na população em geral. É para esses que estão na linha de risco que se indica a cirurgia. E só para esses.
Com critérios tão seletivos, gente que não é obesa mórbida, mas está cansada da luta contra a balança, na maioria das vezes inglória, começa a ver na dieta de engorda o acesso mais fácil à cirurgia que, imaginam, será redentora.
No caso de Fabiano, a engorda foi calculada rigorosamente pelo seu médico. Antes, o advogado tinha IMC de 37,74. Depois de 70 dias de hiperalimentação, o IMC foi para 40,45. E veio a cirurgia.
Com a estudante de medicina Gisele, 23 anos, está sendo um pouco diferente.Gisele está em pleno processo de engorda. Com 1,63 m e 84 quilos (IMC = 31,2), Ela decidiu chegar aos 96 quilos. Terá IMC de 36,1, o que, acredita ela, tornará possível a cirurgia de obesidade. Nos sonhos da jovem, a meta será alcançada até dezembro.
O esforço de engorda da estudante é parecido com o do advogado. Como ela é paulistana e de origem italiana, porém, a dieta conta com um reforço extra nas massas, sempre besuntadas em molhos com muito creme de leite.
Gisele não contou com orientação médica para sua dieta. Ao contrário, fugiu do especialista que a aconselhou a perseverar nas dietas tradicionais de emagrecimento em vez de tentar a cirurgia. "Ele não teve compaixão. Só volto a me apresentar a um médico quando conquistar o peso indicado para a operação."
O cirurgião Marcelo Roque de Oliveira, 47, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e da equipe de médicos do prestigioso Instituto Garrido, de São Paulo, tem horror aos expediente usado pelo advogado Fabiano e pela estudante.
"Há o risco sério para os pacientes de essa engorda desencadear diabetes, hipertensão, lesões nas artérias, entupimentos nas pequenas artérias, problemas articulares, particularmente nos tornozelos, e afetar a coluna. E esses danos podem ser definitivos, sem remissão nem depois do emagrecimento", adverte Oliveira.
O médico sabe que há colegas seus (como foi o caso com o Fabiano) indicando a dieta de engorda, o que ele considera um grave desvio ético: "É o mesmo que um médico criar uma doença em seu paciente com o argumento de que depois vai curá-lo."
Conclusão:
Fabiano quase morreu após operação
"Eu sou um sobrevivente", diz o advogado gaúcho Fabiano Gouveia, o mesmo que se submeteu à dieta de engorda para fazer a cirurgia de obesidade. Nos planos originais, Fabiano ficaria quatro dias no hospital e carregaria uma cicatriz minúscula na barriga, graças a uma videolaparoscopia.
Fabiano ficou 60 dias no hospital, 20 dos quais no Centro de Terapia Intensiva. "Disseram que eu tinha 3% de chances de sobreviver." O advogado sofreu embolia pulmonar. Uma perfuração no intestino gerou um quadro de peritonite. Três vezes, o abdôme do rapaz foi aberto para consertar o estrago. Ficou uma cicatriz de 30 centímetros que se estende do meio do peito até quase o púbis.
O médico também estreitou demais a saída do estômago de Fabiano para o intestino. O estreitamento é feito para tornar a passagem do alimento mais lenta, mantendo a sensação de estômago cheio, mas, no caso de Fabiano, o "funil" ficou tão apertado que, durante nove meses, o rapaz só pôde ingerir dieta líquida.
O advogado perdeu 71 quilos em cinco meses. Desnutrido, os cabelos começaram a cair, assim como as unhas e três dentes.
Para recuperar a capacidade de se alimentar com comidas sólidas, Fabiano teve de se submeter a um novo procedimento. Sedado, introduziram em seu tubo digestivo um balãozinho que, depois de inflado, foi puxado até o esôfago. O balão recuperou-lhe o diâmetro da saída do estômago.
Mesmo assim, carne, nunca mais. Nem moída. "Imagine o que é isso: um gaúcho sem comer carne." E que, quando come outros alimentos, tem de mastigar 40 vezes antes de engolir.
O médico Marcelo Roque de Oliveira diz que complicações graves como as de Fabiano são raras, mas acontecem. "É por isso que a cirurgia só se justifica nos casos em que os benefícios para o paciente suplantem com folga os riscos a que ele se expõe."
Também o estreitamento exagerado da saída do estômago não é comum. Mas é comum o sofrimento na adaptação à vida pós-operação.

Fonte:

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